terça-feira, 30 de agosto de 2016

80. Sob ou Sobre (4)


«[...] foi visível o desânimo do atleta [...] que, aos 27 anos, vê na possibilidade de representar o campeão de Inglaterra uma hipótese dourada para a sua carreira sobre todos os níveis».
O Jogo, 30 de agosto de 2016, p. 6.

Este é um erro recorrente. O que ali deveria estar era «sob», significando «debaixo de», por existir uma relação de subordinação dos níveis à carreira. Tal como acontece com as expressões «sob todos os pontos de vista» ou «sob todos os aspetos».
As preposições «sob» e «sobre» são antónimas: «sobre» reporta-se com frequência a uma posição de superioridade relativamente a algo («por cima de») e «sob» a uma posição de inferioridade ou subordinação («por baixo de»). 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

79. Houveram ou Houve


Um antigo atleta olímpico, referindo-se aos Jogos de 2016:
«Mas também deixe-me realçar que houveram atletas em 4.º lugar, atletas em 5.º lugar, em 6.º [...]»
Opinião Pública, SIC Notícias, 22 de agosto de 2016, 11h16.

Houve atletas e não houveram atletas. O verbo haver, com sentido de existir, é um verbo impessoal e conjugado apenas na 3.ª pessoa do singular (houve), independentemente de o sujeito (atletas) ser plural.
A forma houveram, caída em desuso, é possível apenas quando o verbo haver se apresenta com o sentido de ter: «E no final, sob forte aplauso do público, os cantores houveram de bisar». 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

78. Quaisqueres ou Quaisquer


Sobre um crime de violação de menor na Madeira, diz-se:
«há sensivelmente dois anos, ao Carlos foi entregue uma casa com todo o conforto, já que vivia numa espécie de casebre sem quaisqueres condições [...]».
Notícias 24, TVI 24, 21 de agosto de 2016, 10h12.

Na língua portuguesa, a regra de formação do plural manda acrescentar um -s final à palavra no singular, no caso dos substantivos terminados em vogal, ou -es no caso dos substantivos terminados em -r.  Porém, o caso dos pronomes ou determinantes indefinidos «qualquer/quaisquer» constitui uma exceção a esta regra, pelo que «quaisqueres», como na frase acima, está errado. 
«Qualquer» e «quaisquer» são palavras formadas por justaposição, ou seja, que resultam da união de duas palavras formando uma: qual + quer, originando «qualquer», ou quais + quer, originando «quaisquer», sem que se registe qualquer alteração. Porém, e se se reparar bem, em «quaisquer», há já a flexão em número, de qual para quais, mas no primeiro elemento e não no segundo, como é normal.

domingo, 7 de agosto de 2016

77. Saíu e Saiu


«Tenho apenas uma irmã, a Paula, um pouco mais velha que eu. Apesar de vivermos há quase 40 anos a 300 km um do outro – a minha irmã não saíu de Lisboa [...]»
Entrevista a João Semedo, Público, 7 de agosto de 2016. 

A terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo sair é «saiu» e não «saíu». Admito que a confusão seja com a terceira pessoa do singular do pretérito imperfeito que é «saía» e não «saia» (primeira pessoa do singular do presente do conjuntivo).

quinta-feira, 14 de julho de 2016

76. Malicioso ou Maléfico


A sinopse do filme «The Conjuring 2 - A Evocação» reza assim:
«O novo thriller sobrenatural [...] traz uma nova história verídica saída dos arquivos dos reconhecidos Ed e Lorraine Warren, o casal especialista em casos paranormais.  [...] interpretam o casal Lorraine e Ed Warren que, numa das suas investigações mais aterradoras, viaja até ao norte de Londres para ajudar uma mãe solteira a criar quatro crianças numa casa assombrada por espíritos maliciosos». 
Site da NOS, 10 de julho de 2016.

A questão aqui são os espíritos maliciosos. Trata-se de uma tradução demasiado literal, e sem atender ao contexto, do inglês «malicious spirits». Seria mais adequado usar «maléficos», «malignos», «diabólicos» ou equivalente. É bem certo que a «malícia» - e a etimologia comprova-o - é definida pelos dicionários como tendência, inclinação, aptidão para o mal, mas não é menos certo que o seu uso consagrado é o de «segundo sentido» - ou mais referencialmente de «mau sentido» - do dito picante, do chiste, da provocação. Este mal é aqui o pecado, referenciado à moral judaico-cristã, e não tanto o mal como oposto de bem.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

75. Beneficiência e Beneficência


«Jogo de beneficiência em Odivelas», titulava o Diário de Notícias, a propósito de um jogo de angariação de fundoa para o antigo guarda-redes do Sporting, e que representou Portugal nos Jogos Olímpicos de Atlanta.

A forma correta da palavra é beneficência. Beneficiência não existe. Beneficência é a disposição para fazer o bem, praticar caridade e ajudar os outros. É sinónimo de benevolência, de filantropia, de bondade, de caridade, de ajuda. Trata-se de um erro frequente advindo da confusão com a palavra «ciência» ou eventualmente de «simpatia» com «benefício», já que beneficência é o «ato de fazer benefícios». O dicionário da Academia das Ciências de Lisboa apresenta mesmo como sinónimo de benefício a expressão «espectáculo de beneficência». Bastaria, porém, um breve segundo de reflexão etimológica para se perceber da impossibilidade daquela palavra que provém do latim beneficentĭa. A quarta sílaba é, assim, «cênc» e não «ciên». O mesmo se passa com a palavra beneficente, cognata de «beneficência», que é escrita «cen» e não «cien».

sábado, 2 de julho de 2016

74. Fobia e Mania


Ao longo das marcações dos penáltis no jogo Portugal-Polónia, do dia 30 de junho, no Euro 2016:
«O canal de televisão espanhol Cuatro seguiu com uma câmara Cristiano Ronaldo ou não fossem eles ter essa fobia com o capitão português [...]».
Mais futebol, TVI24, 1 de julho de 2016, 23h08.

O que a jornalista queria dizer era a «mania», a obsessão, das televisões  espanholas com os comportamentos do capitão da seleção nacional e não a «fobia», ou seja, o medo exagerado, o pavor, do mesmo. A confusão entre fobia e mania é recorrente e agravada pelo facto de, como se percebe, os termos serem antónimos.