sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

92. Preponente ou Proponente


«Apesar de terem reunido toda a documentação necessária, as inscrições dos candidatos foram reenviadas às estruturas locais de Aveiro e Coimbra, de onde são os preponentes, por alegadas falhas nos processos, avança o jornal ‘Público’».

O que parece - porque o contexto não é inteiramente claro - querer dizer-se aqui era «proponentes», ou seja, os que propõem (propuseram), e não «preponentes», isto é, literalmente, aqueles que põem à frente, que prepõem, comummente, que elegem ou designam alguém. Preponente é usado no âmbito jurídico para significar alguém que designa outrem para o representar ou agir em seu lugar.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

91. Sob ou Sobre (5)



«Foi sobre a sua liderança que o império cresceu, estendendo-se às mais diversas áreas, do negócio da madeira, aos hipermercados, passando pela comunicação, com a Rádio Nova (1989) e o jornal Público (1990). O filho Paulo de Azevedo substituiu o pai na liderança do grupo em 2015».
Sapo 24, 29 de novembro de 2017.

Mais uma vez! A propósito da morte do empresário Belmiro de Azevedo, o que se deveria ler na frase acima era foi sob a sua liderança, foi debaixo da sua liderança, e não «foi sobre a sua liderança», dado que não se está a falar dela.
As preposições «sob» e «sobre» são antónimas: «sobre» reporta-se com frequência a uma posição de superioridade relativamente a algo («por cima de») e «sob» a uma posição de inferioridade ou subordinação («por baixo de»).

terça-feira, 28 de novembro de 2017

90. Catalinada ou Catilinária



«Mas não foi o presidente do Braga que, há 15 dias atrás, após o jogo de Alvalade. foi à sala de imprensa despejar uma catalinada contra os árbitros - e, naquele caso concreto, com toda a razão?» 
Miguel Sousa Tavares - «Sinais de desgaste», A Bola, 28 de novembro de 2017, p. 36.

«Catalinada» não existe. Parece ser uma amálgama entre «catilinária» - diatribe, discurso violento - e «catanada» - usada figuradamente com o mesmo sentido. O correto seria «catilinária», termo que provém das das célebres catilinárias, discursos proferidos pelo cônsul romano Marco Túlio Cícero contra Lúcio Sérgio Catilina, de que vieram a tomar o nome.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

89. Reune ou Reúne


«Quando misteriosas naves espaciais aterram em vários pontos do globo, uma equipa de elite – liderada pela especialista em linguística Louise Banks (Amy Adams) – reune-se para investigar». 
Sinopse do filme O primeiro encontro, site da NOS, 20 de novembro de 2016.

Há coisas do demo, de facto!… Quis o acaso que o erro na sinopse do filme O primeiro encontro, disponível no site da NOS, surgisse justamente num trecho em que se fala de uma especialista em linguística… O erro é no tempo verbal do verbo reunir já que «reúne» é uma palavra acentuada, dado que existe um hiato entre o «e» o «u», sendo o «u» a vogal tónica.

P.S. – Na mesma sinopse, também há uma gralha a falta do l final em «mundia», que devia ser «mundial».

domingo, 20 de novembro de 2016

88. Bem vindo ou Bem-vindo

Foto: Paulo J. S. Barata (19 de novembro de 2016)

À entrada do Parque das Nações, a respetiva junta de freguesia saúda-nos com um «Bem vindo». É comum a confusão entre «Benvindo» (nome próprio) – até mais usual no feminino: «Benvinda» – e «bem-vindo», fórmula de saudação. Mas é porventura menos comum o lapso entre «bem vindo» e «bem-vindo». «Bem-vindo» é uma palavra composta, formada por justaposição do advérbio «bem» e do adjetivo verbal «vindo» que têm de ser ligados por hífen.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

87. Solarengo ou Soalheiro (3)

«[...] o fim de semana prolongado e solarengo acabou por presentear os que escolheram o Sul»
Diário da Manhã, TVI, 31 de outubro de 2016, 8h09.

Solarengo significa «relativo ou pertencente a um solar», isto é, a uma casa nobre. O que ali se deveria ter dito era «soalheiro», ou seja, «iluminado pelo sol». Etimologicamente não há dúvidas, «solarengo» provém de «solar + -engo», «soalheiro» provém de «soalhar + -eiro». 

P.S. - Registe-se, porém, que o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa já apresenta - mal - ambas as expressões como sinónimas.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

86. Mais valia ou Mais-valia


A propósito de Jonas: «[...] vale de facto o seu peso em ouro e representa uma mais valia tremenda para os encarnados»
«Em torno do desperdício, no futebol...», Cartas na mesa, A Bola, 24 de outubro de 2016.

Mais valia é uma expressão composta de onde se deve grafar «mais-valia». Significa benefício, vantagem, trunfo. Ou seja, a presença de Jonas na equipa representa um benefício, uma vantagem, um trunfo para o Benfica. Para além do sentido comum é muito usada em economia e finanças para representar o lucro, o excedente das receitas sobre as despesas. 
A expressão pode ser usada sem hífen, por exemplo na frase: mais valia o articulista ter consultado um dicionário antes de usar a palavra...

terça-feira, 11 de outubro de 2016

85. Exceto ou Exeto

Foto: Paulo J. S. Barata (29 set. 2016)

No Campo Grande, mesmo em frente à Biblioteca Nacional de Portugal, pelo facto de parte do passeio estar escalavrado e não ter continuidade, a empresa que procede às obras colocou esta indicação direcionando os transeuntes para o separador central, «exeto» [sic] quem vai para a Biblioteca... Como é fácil de ver, o que teria de lá estar era «exceto» - com cê - e não «exeto», porque aquele cê é pronunciado... A única letra suprimida com a nova grafia foi o pê («excepto») que não é pronunciado... Está tudo devidamente explicado na Base IV - «Das sequências consonânticas», do Acordo Ortográfico de 1990.

domingo, 25 de setembro de 2016

84. Titulo ou Título


«[...] e depois do ultimo titulo [...]»
Eduardo Barroso  - «A nossa terceira derrota de era Jesus». A Bola, 21 de setembro de 2016, p. 36.

É óbvio que a falta do acento em «titulo» se trata de uma gralha. Mas que em certos contextos pode ser danosa. É que «titulo» é uma forma do verbo «titular», ou seja, dar título a alguém. E «título» é, neste contexto, uma distinção, no caso o troféu da Primeira Liga de Futebol.

P.S. - Assinale-se também, neste caso, o pecadilho de «ultimo» em vez de «último».

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

83. Ultimo ou Último


«[...] e depois do ultimo titulo [...]»
Eduardo Barroso  - «A nossa terceira derrota de era Jesus». A Bola, 21 de setembro de 2016, p. 36.

É óbvio que a falta do acento em «ultimo» se trata de uma gralha. Mas que em certos contextos pode ser danosa. É que «ultimo» é uma forma do verbo «ultimar», ou seja, concluir, terminar algo. E «último» é, consoante as circunstâncias, um adjetivo ou um substantivo, significando o derradeiro, o final, o que vem no fim, o pior, ou ainda o mais recente, o mais novo, o de menor categoria.

P.S. - Assinale-se também, neste caso, o pecadilho de «titulo» em vez de «título».

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

82. Há ou À

 

«Estamos agora, há quinta jornada, em segundo lugar a um ponto do primeiro [...]»
Eduardo Barroso  - «A nossa terceira derrota de era Jesus». A Bola, 21 de setembro de 2016, p. 36.

Em «à quinta jornada», como em «até ao momento», «até à data» ou «até à tarde de ontem», e frases similares, usa-se «à», ou seja, a contração da preposição «a» com o artigo definido «a». «Há» é uma forma do verbo haver, com o sentido de «existir», usada comummente em expressões de tempo, como, por exemplo, em: «até há três anos, mas mais há ano e meio [...]», expressões que o mesmo cronista usa mais abaixo no mesmo texto*.


Curiosamente, e com a mesma proveniência, já aqui assinalámos igual erro, o que já pode configurar um padrão.

* Assinalem-se também, neste caso, os pecadilhos de «ultimo» em vez de «último» e de «titulo» em vez de «título».

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

81. Excepto ou Exceto

Foto: Paulo J. S. Barata (6 de setembro de 2016)

A mesma autarquia - Câmara Municipal de Tavira -, duas grafias... «Excepto», na grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990, «exceto», na grafia atual, em Portugal... Calculo que os sinais que mantêm a grafia antiga já existissem, mas custava assim tanto mandar pintar aquela palavra novamente de modo a que na mesma cidade, e pior, no mesmo gradeamento, não coexistissem duas grafias?

terça-feira, 30 de agosto de 2016

80. Sob ou Sobre (4)


«[...] foi visível o desânimo do atleta [...] que, aos 27 anos, vê na possibilidade de representar o campeão de Inglaterra uma hipótese dourada para a sua carreira sobre todos os níveis».
O Jogo, 30 de agosto de 2016, p. 6.

Este é um erro recorrente. O que ali deveria estar era «sob», significando «debaixo de», por existir uma relação de subordinação dos níveis à carreira. Tal como acontece com as expressões «sob todos os pontos de vista» ou «sob todos os aspetos».
As preposições «sob» e «sobre» são antónimas: «sobre» reporta-se com frequência a uma posição de superioridade relativamente a algo («por cima de») e «sob» a uma posição de inferioridade ou subordinação («por baixo de»). 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

79. Houveram ou Houve


Um antigo atleta olímpico, referindo-se aos Jogos de 2016:
«Mas também deixe-me realçar que houveram atletas em 4.º lugar, atletas em 5.º lugar, em 6.º [...]»
Opinião Pública, SIC Notícias, 22 de agosto de 2016, 11h16.

Houve atletas e não houveram atletas. O verbo haver, com sentido de existir, é um verbo impessoal e conjugado apenas na 3.ª pessoa do singular (houve), independentemente de o sujeito (atletas) ser plural.
A forma houveram, caída em desuso, é possível apenas quando o verbo haver se apresenta com o sentido de ter: «E no final, sob forte aplauso do público, os cantores houveram de bisar». 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

78. Quaisqueres ou Quaisquer


Sobre um crime de violação de menor na Madeira, diz-se:
«há sensivelmente dois anos, ao Carlos foi entregue uma casa com todo o conforto, já que vivia numa espécie de casebre sem quaisqueres condições [...]».
Notícias 24, TVI 24, 21 de agosto de 2016, 10h12.

Na língua portuguesa, a regra de formação do plural manda acrescentar um -s final à palavra no singular, no caso dos substantivos terminados em vogal, ou -es no caso dos substantivos terminados em -r.  Porém, o caso dos pronomes ou determinantes indefinidos «qualquer/quaisquer» constitui uma exceção a esta regra, pelo que «quaisqueres», como na frase acima, está errado. 
«Qualquer» e «quaisquer» são palavras formadas por justaposição, ou seja, que resultam da união de duas palavras formando uma: qual + quer, originando «qualquer», ou quais + quer, originando «quaisquer», sem que se registe qualquer alteração. Porém, e se se reparar bem, em «quaisquer», há já a flexão em número, de qual para quais, mas no primeiro elemento e não no segundo, como é normal.

domingo, 7 de agosto de 2016

77. Saíu e Saiu


«Tenho apenas uma irmã, a Paula, um pouco mais velha que eu. Apesar de vivermos há quase 40 anos a 300 km um do outro – a minha irmã não saíu de Lisboa [...]»
Entrevista a João Semedo, Público, 7 de agosto de 2016. 

A terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo sair é «saiu» e não «saíu». Admito que a confusão seja com a terceira pessoa do singular do pretérito imperfeito que é «saía» e não «saia» (primeira pessoa do singular do presente do conjuntivo).

quinta-feira, 14 de julho de 2016

76. Malicioso ou Maléfico


A sinopse do filme «The Conjuring 2 - A Evocação» reza assim:
«O novo thriller sobrenatural [...] traz uma nova história verídica saída dos arquivos dos reconhecidos Ed e Lorraine Warren, o casal especialista em casos paranormais.  [...] interpretam o casal Lorraine e Ed Warren que, numa das suas investigações mais aterradoras, viaja até ao norte de Londres para ajudar uma mãe solteira a criar quatro crianças numa casa assombrada por espíritos maliciosos». 
Site da NOS, 10 de julho de 2016.

A questão aqui são os espíritos maliciosos. Trata-se de uma tradução demasiado literal, e sem atender ao contexto, do inglês «malicious spirits». Seria mais adequado usar «maléficos», «malignos», «diabólicos» ou equivalente. É bem certo que a «malícia» - e a etimologia comprova-o - é definida pelos dicionários como tendência, inclinação, aptidão para o mal, mas não é menos certo que o seu uso consagrado é o de «segundo sentido» - ou mais referencialmente de «mau sentido» - do dito picante, do chiste, da provocação. Este mal é aqui o pecado, referenciado à moral judaico-cristã, e não tanto o mal como oposto de bem.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

75. Beneficiência e Beneficência


«Jogo de beneficiência em Odivelas», titulava o Diário de Notícias, a propósito de um jogo de angariação de fundoa para o antigo guarda-redes do Sporting, e que representou Portugal nos Jogos Olímpicos de Atlanta.

A forma correta da palavra é beneficência. Beneficiência não existe. Beneficência é a disposição para fazer o bem, praticar caridade e ajudar os outros. É sinónimo de benevolência, de filantropia, de bondade, de caridade, de ajuda. Trata-se de um erro frequente advindo da confusão com a palavra «ciência» ou eventualmente de «simpatia» com «benefício», já que beneficência é o «ato de fazer benefícios». O dicionário da Academia das Ciências de Lisboa apresenta mesmo como sinónimo de benefício a expressão «espectáculo de beneficência». Bastaria, porém, um breve segundo de reflexão etimológica para se perceber da impossibilidade daquela palavra que provém do latim beneficentĭa. A quarta sílaba é, assim, «cênc» e não «ciên». O mesmo se passa com a palavra beneficente, cognata de «beneficência», que é escrita «cen» e não «cien».

sábado, 2 de julho de 2016

74. Fobia e Mania


Ao longo das marcações dos penáltis no jogo Portugal-Polónia, do dia 30 de junho, no Euro 2016:
«O canal de televisão espanhol Cuatro seguiu com uma câmara Cristiano Ronaldo ou não fossem eles ter essa fobia com o capitão português [...]».
Mais futebol, TVI24, 1 de julho de 2016, 23h08.

O que a jornalista queria dizer era a «mania», a obsessão, das televisões  espanholas com os comportamentos do capitão da seleção nacional e não a «fobia», ou seja, o medo exagerado, o pavor, do mesmo. A confusão entre fobia e mania é recorrente e agravada pelo facto de, como se percebe, os termos serem antónimos.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

73. Fatos e Factos


Bruno de Carvalho, acerca do jogador André Carrillo:
«A verdade dos fatos é que estava tudo acordado para a negociação do contrato, e de repente o jogador voltou atrás na palavra».
Expresso - Revista, 25 de junho de 2016, p. 33.

Em Portugal, na palavra «factos», o cê é claramente pronunciado, razão pela qual deve ser grafado. É portanto «facto» e não «fato». Ademais, situação é até expressamente prevista na Base IV do Acordo Ortográfico:
«c) Conservam-se ou eliminam-se facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção» (sublinhado nosso). 
O mesmo é dizer, escreve-se «facto» em Portugal e «fato» no Brasil. A situação, portanto, não se altera. 

Admito que a entrevista possa ter sido transcrita por um estagiário, ou similar, mas mesmo assim é fraca desculpa para tal descuido num jornal de referência.